24 de fev de 2018

Não-binaridade: Conceitos

A não-binaridade é toda identidade que de alguma forma está fora do padrão binário homem-mulher imposto pela sociedade. O conceito mais atual de uma pessoa não-binária é: toda pessoa que não é totalmente homem ou totalmente mulher.

Existe uma diversidade imensa e talvez infinita de identidades n-b, podendo ser:

- variações de homem ou mulher;
- gêneros masculinos relacionados ou não com homem;
- gêneros femininos relacionados ou não com mulher;
- gêneros relacionados com androginidade ou neutralidade;
- gêneros fora do espectro de feminino, masculino, andrógino e neutro;
- gêneros desconhecidos ou até incompreensíveis;
- vivências de múltiplos gêneros, periodicamente ou ao mesmo tempo;
- fluidez entre dois ou mais gêneros, podendo partir da presença até a ausência de gênero;
- ausência parcial ou total de gênero;
- e muitas outras.

As pessoas podem ser não-binárias não apenas pela sensação de não se encaixar no homem ou na mulher bináries, mas também apenas por rejeitar o conceito de gênero ou pela vontade consciente de transgredir a cisnormatividade. Ser não-binárie pode ser um sentimento ou uma performance.

Há identidades exclusivas de pessoas neurodivergentes ou pessoas intersexo, e gêneros restritos de culturas, mostrando que a não-binaridade de alguém pode ser influenciada por condições mentais, corporalidade ou cultura. E essas exclusividades devem ser respeitadas.

Seja você registrade como homem ou mulher no nascimento ou alguém que transicionou para um desses gêneros, deixou de se identificar com ele, mesmo que por um dia, isso te torna uma pessoa não-binária por definição. Claro, se assim quiser. A não-binaridade não é uma regra ou uma imposição, ela é justamente a quebra de regras e imposições.

Inclusive, você pode se encaixar nos estereótipos de um gênero, ter apresentação e expressão socialmente "de acordo" com seu gênero de registro, ser indiferente com seu gênero de registro ou como as pessoas te percebem, e ainda ser não-binárie.

Pelo conceito de transgênero, todas as pessoas n-b são trans. Porém, há não-bináries que não se identificam como trans ou não dizem ser trans, e isso deve ser respeitado. Em todo caso, pessoas n-b podem ou não ter disforias com o corpo, necessitando de cirurgias e hormonizações assim como a maioria das pessoas trans binárias.

Genderqueer (ou gênero queer) é um termo muito utilizado na anglosfera e pode ser adotado por qualquer pessoa que não seja cis. É considerado como uma forma mais radical de ser contra a cisnormatividade, por isso, assim como queer, é uma identidade mais política. No entanto há pessoas cis que usam esse termo para definir suas quebras de normas de gênero - os papeis ("homem tem que fazer isso, mulher nasceu pra fazer aquilo") e as apresentações (homem tradicionalmente masculino e mulher tradicionalmente feminina).

Segue abaixo dois conceitos usados por não-bináries para explicar melhor suas identidades:

Alinhamento de gênero: é um conceito um tanto abstrato e pode fazer mais sentido para não-bináries. Um alinhamento é como uma conexão com um gênero, ainda que a pessoa não seja desse gênero. Não-bináries podem falar em alinhamento para explicar que suas experiências são similares com o do gênero alinhado.

É comum pessoas n-b se dizerem alinhadas com o gênero masculino ou gênero feminino. Porque como homem e mulher são os gêneros impostos e validados pela sociedade, muites não-bináries acabam tendo vivências relacionadas com um desses gêneros ou mesmo ambos.

Pode haver alinhamentos com qualquer gênero. Há não-bináries que não têm alinhamento também. Em todo caso, alinhamentos dizem respeito às vivências da pessoa, por mais complexas e subjetivas que sejam, e pode ou não influenciar na própria identidade de gênero ou mesmo a expressão de gênero.

Elemento de gênero: é uma característica a mais - além de identidade, expressão e alinhamento - que de alguma forma interage com o gênero da pessoa. Essa característica está relacionada com os conceitos de masculinidade, feminilidade, entre outros.

Geralmente quando uma pessoa é de determinado gênero e diz ser masculina/feminina/neutra etc, ela está se referindo ao elemento. Por isso também é um conceito acessível para cis e bináries, pois há homens que dizem ser femininos e há mulheres que dizem ser masculinas. E tal "essência" pode ou não ser externalizada (no caso, na expressão de gênero).



E sobre as bandeiras que coloquei logo abaixo, a bandeira não-binária foi criada por uma pessoa n-b chamada Kye Rowan em 2014. As faixas representam estar fora do binário (amarela), pessoas de múltiplos gêneros (branca), as experiências fluídas ou múltiplas e pessoas dentro do espectro feminino-masculino (roxa), e ausência de gênero (preta). E as faixas da bandeira genderqueer, criada por Marilyn Roxie em 2011, representam androginia e queer (lavanda), ausência de gênero (branca), e identidades fora do binário (verde).

Enfim, essa foi a introdução sobre a não-binaridade que agora será abordada e explorada aqui no blog. Em breve falarei sobre outros tópicos.





17 de fev de 2018

Lista de discriminações

O artigo de hoje será simples. Vou apenas passar essa lista, colocando os termos mais atualizados de acordo com o que já falei sobre as palavras de sufixo -fobia e termos referentes às discriminações não relacionadas com a diversidade sexual e de gênero.

Discriminações relacionadas à orientação

Heterossexismo: contra heterodissidentes.
Homomisia: contra homossexuais, muito mais usada para gays.
Lesbomisia: contra lésbicas.
Bimisia: contra bissexuais.
Panmisia: contra pansexuais.
Monossexismo: contra pessoas multi.
Acemisia/Alossexismo: contra assexuais, também usada para pessoas do espectro assexual.
Aromisia/Amatonormatividade: contra arromântiques, também usada para pessoas do espectro arromântico.

Discriminações relacionadas a gênero

Sexismo: contra pessoas perissexo ovariadas, principalmente as mulheres cis.
Misoginia/Machismo: contra mulheres.
Cissexismo: contra transgêneros.
Transmisia: contra pessoas trans, mais usada para as binárias.
Transmisoginia: contra mulheres trans e pessoas transfemininas.
Enebemisia/Exorsexismo: contra pessoas não-binárias e a não-binaridade.
Binarismo: contra gêneros restritos de culturas.

Discriminações relacionadas à corporalidade e saúde

Gordomisia: contra gordes.
Inter(sexo)misia/Diadismo: contra intersexos.
Capacitismo: contra PCDs (pessoas com deficiência).
Psicomisia: contra pessoas com um ou mais transtornos mentais.
Sanismo: contra pessoas com qualquer doença ou condição atípica, usada principalmente para as deficiências físicas e mentais.
Soromisia: contra soropositives.

Discriminações relacionadas à raça, etnia e cultura

Nativismo: contra imigrantes.
Etnocentrismo: contra uma cultura ou outro país.
Racismo: contra uma etnia ou raça, atualmente o racismo mais conhecido é contra raças negras e descendentes e mestiços.
Xenomisia: contra estrangeires, seja de outra cidade, outro estado, ou outro país.
Islamomisia: contra muçulmanes e sua doutrina e cultura.

Discriminações relacionadas à classe

Elitismo: contra classes socioeconômicas "menores".
Academicismo: contra pessoas analfabetas ou com pouca escolaridade/conhecimento linguístico.
Aporomisia: contra pobres.

Outras discriminações

Etarismo: contra idoses.
Mononormatividade: contra poligâmiques e poliamoristas.
Fememisia: contra feminilidade.



14 de fev de 2018

Opressões interligadas

Por que falar de todas as opressões? É possível focar apenas em uma?

Bom, tendo isso em mente, vamos analisar os três sistemas opressivos que geram todas as discriminações sofridas pelas pessoas da comunidade LGBTQIAP+: a heteronormatividade (imposição da orientação e relação hétero), a cisnormatividade (imposição da cisgeneridade) e o diadismo (imposição dos corpos perissexo).

Como já falei num outro artigo, todos esses sistemas agem em conjunto no mundo inteiro, embora haja vezes em que podem agir individualmente. Mais do que isso, possuem fortes ligações entre si. Vou fazer três constatações que mostram melhor isso.

Toda pessoa cisnormativa é diadista, mas não necessariamente heteronormativa.

Dentro da cisnormatividade há a imposição de que sexo define gênero. E dentro dela também somente dois gêneros são válidos: homem e mulher.

Pois bem, se há um corpo que não é perissexo testiculado ou perissexo ovariado, dificultando que seja classificado como masculino ou feminino, esse corpo - intersexo - é definido como uma anomalia e que precisa ser corrigida. Se sexo define gênero e só existem dois gêneros, logicamente esse mesmo pensamento valida apenas os perissexos.

Toda pessoa heteronormativa é também cisnormativa e, com isso, diadista.

A identidade hétero foi historicamente construída para mulheres e homens cisgêneros e perissexos.

É praticamente impossível existir alguém que valida um casal hétero onde uma ou ambas as partes são trans ou intersexo enquanto discrimina casais do mesmo gênero ou heterodissidentes. Além disso, a heteronormatividade automaticamente excluí os gêneros não-binários, a opressão chamada exorsexismo, que está dentro da cisnormatividade.

É possível uma pessoa não ser heteronormativa e cisnormativa, mas ainda ser diadista.

Mesmo que haja tolerância com toda orientação não-hétero e a transgeneridade, a sociedade, majoritariamente composta por perissexos, ainda pode tratar os corpos intersexo como anomalias. A corporalidade é um aspecto separado de orientação e gênero e traz discussões específicas; como quais corpos/genitálias são atraentes e quais não são.

É possível também uma pessoa perissexo e trans (binária ou não-binária) ter pensamento diadista. No entanto, devido às semelhanças entre as vivências de transgêneros e intersexos, a opressão ocorre com frequência muito menor em comparação com pessoas cis.



Esse texto foi apenas uma análise minha para apontar que esses sistemas estão muito interligados. Não são construções separadas que depois se uniram, elas nasceram unidas. Logo, seguindo essa linha de raciocínio, devem ter a mesma origem, partir da mesma raiz. Qual? Não sei responder ainda. Há muito o que estudar.

Em todo caso, o conteúdo aqui apenas reforça a necessidade de se falar constantemente de todos os sistemas, pois no fim eles atingem todos os segmentos da comunidade de uma forma ou de outra. Nosso discurso e nossa militância precisam ser interseccionais ao máximo.