19 de mai de 2018

Não-binariedade: Elementos

Outro conceito formulado para explicar experiências e identidades não-binárias é o de elemento de gênero. O elemento é uma característica que de alguma forma interage com o próprio gênero, algo conectado a algum conceito - masculinidade, feminilidade, etc. Pode também interagir com a expressão de gênero da pessoa.

Pode ser bem útil para pessoas que tem um gênero e/ou uma expressão de gênero ligades a uma qualidade, mas sentem em seu íntimo uma qualidade diferente (ex: ume agênero com expressão masculina que se sente uma pessoa feminina, alguém próxime da feminilidade).

Lembrando que esses termos não são identidades em si, apenas descrições que podem ser usadas para explicar melhor toda a identidade de gênero da pessoa. É um conceito acessível também às pessoas binárias.



Ferviane: um elemento que é masculino ou relacionado com masculinidade.


Eluviane: um elemento que é feminino ou relacionado com feminilidade.


Telusiane: um elemento que não é masculino, feminino, ou xenico. Pode ser usado para um elemento neutro, mas não se limita somente a isso.


Ventuliane: um elemento que não é bem definido. Pode ser algo fluído, que muda constantemente; ou algo tão vago que não pode ser identificado.


Alteriane: um elemento que é xenico, ou seja, não está relacionado com as concepções comuns de gênero.


Vociviane: pessoa que não tem ou rejeita elementos.




E por hoje é só!



16 de mai de 2018

Heterodissidentes e as normas de gênero

Muito se fala que orientação sexual e identidade de gênero são coisas diferentes e que não tem nada a ver uma com a outra. A opressão contra pessoas que não são hétero é uma, a opressão contra quem não é cis é outra. Ponto final.

Não, não vou negar os conceitos e nem que as opressões contra pessoas heterodissidentes e pessoas transgêneros são específicas e singulares. Mas não posso deixar de notar que esses discursos trazem uma visão distorcida sobre a história da heterodissidência no mundo.

Nem faz tanto tempo que a noção social era que homens e mulheres "de verdade" eram apenas hétero. O resto era... o resto. Tinha homens, tinha mulheres, e aí vinham homossexuais, transexuais, e etc. Mesmo hoje esse pensamento perdura. É tão bizarro, porque toda a população tem em seus documentos um sexo/gênero marcado como ou masculino ou feminino. Porém, socialmente, o gênero documental era simplesmente ignorado em função da sexualidade e também da expressão de gênero do indivíduo.

Tendo isso em mente, não seria equivocado afirmar que pessoas heterodissidentes também desafiaram as noções de gênero, não apenas as sexuais. E não falo especificamente de homens afeminados ou mulheres bofinhos, falo de todes heterodissidentes. O simples fato de estar fora da heterossexualidade, até então combinada "perfeitamente" com a cisgeneridade, não apenas desafiou as normatividades como contribuiu para a separação dos conceitos.

Foi então que se percebeu que homens aquileanos e mulheres sáficas ainda eram homens e mulheres, tão homens e mulheres quanto héteros. Ser heterodissidente teve a ver, até certo ponto, com gênero. E foi algo bem positivo. Abriu-se discussões sobre sexualidade e gênero.

Se a heterodissidência é uma afronta à heteronormatividade, e a heteronormatividade está entrelaçada com a cisnormatividade, então não é nada surpreendente que pessoas não-hétero tenham atacado, até certo ponto, a própria imposição de gênero.

Isso tudo sem contar que muites heterodissidentes foram ou são não-conformistas de gênero, pessoas com uma expressão de gênero não esperada pela sociedade.

A orientação sexual e a identidade de gênero são características separadas. Isso é um fato. Mas as imposições sexuais e de gênero estão aí, misturadas e jogadas na cara de todes. Ume desviante do sistema é sempre uma ameaça completa - no caso, um sistema heterossexista e cissexista.


12 de mai de 2018

Cidadão de bem

Mis parentes tiveram contato por muitos anos com uma pessoa que resume esplendidamente o famigerado cidadão de bem. Não queria falar dele, mas não há como. Ele traía a esposa, teve um filho fora do casamento, já deixou a mãe doente sozinha dentro de um carro por horas, xinga a própria filha de gorda o tempo todo, e já comprou um juiz para se safar de um processo.

E aí fica no Facebook postando mensagens de amor para a esposa falecida e compartilhando conteúdo espírita. Junto com tudo isso faz ainda os típicos discursos reacionários, além de apoiar um conhecido político fascista. Como ele já se chamou? Isso mesmo: cidadão de bem.

"Ah, mas não podemos generalizar."

Na boa, generalizo sim porque até agora não vi uma única pessoa que se dizia "de bem" que não fosse desprezível igual ao sujeito que tive o imenso desprazer de conhecer.

Quando falam cidadão de bem estão falando de qualquer gênero. Mas não farei questão de usar neolinguagem para esse tema. Faço questão de usar a palavra masculina considerando que a grande maioria que faz esse discurso é homem cis.

O pacote do cidadão de bem inclui ser:

- cristão e anti-"comunismo" (dar tudo que tem aos pobres é uma ideia bem capitalista, né?)
- a favor da família tradicional (mesmo traindo cônjuge e destratando a própria família)
- contra a corrupção (mesmo votando em figuras corruptas e praticando certas corrupções)
- armamentista (mesmo não tendo treinamento e autocontrole até numa conversa de bar)
- "pró-vida" e a favor da pena de morte (foda-se a lógica)
- contra direitos de minorias (bom, a grande maioria é homem hétero-cis branco, né?)
- defensor de espancar criança pra educar (mesmo a pedagogia internacional sendo contrária)

Lindo pacote, né? E ainda vem amarrado com um laço vermelho, da mesma cor do sangue das pessoas que os discursos de ódio dos "cidadãos de bem" derramam.

O cidadão de bem é um personagem que reflete perfeitamente tudo de podre das gerações anteriores, tudo de ruim que agora está saindo escandalosamente. E um fato histórico tragicômico para finalizar: "cidadão de bem" era o nome de um jornal da Ku Klux Klan onde atacavam direto a população negra com discursos baseados na Bíblia.

Dica: fujam dessas pessoas que falam que são "um cidadão de bem". Cidadão até são, mas de bem... nem aqui, nem num universo paralelo.