14 de jun de 2018

Palavras capacitistas

Capacitismo é um outro tema muito ignorado. Termos capacitistas provavelmente devem ser os mais usados e os menos questionados em geral, ao contrário de termos que ofendem outros grupos - negres, gays, mulheres etc.

Segue abaixo palavras capacitistas usadas frequentemente:

Estúpide
Idiota
Imbecil
Otárie
Doide
Louque
Maluque
Retardade
Lesade
Demente
Lunátique
Insane
Maníaque
Débil
Cretine
Mongol
Capenga
Babaca
Trouxa

Todas essas palavras na verdade descrevem condições mentais específicas, que manifestam vários níveis de deficiência cognitiva, ou dificuldade de aprendizagem, ou desconexão com a realidade, entre outras coisas.

Precisamos parar de ficar usando tais condições para definir pessoas escrotas, ridículas, sem caráter, irresponsáveis etc. Afinal, além de pessoas não serem inferiores por suas condições mentais, deficiências mentais não têm a ver com qualidades negativas de um indivíduo.

O mesmo vale para palavras que não são em si capacitistas, mas que são usadas nesse contexto (ex: dizer que a pessoa tem "probleminha" na cabeça).

Sei que é difícil por causa do costume, mas evitem usá-las. Especialmente quando forem atacar gente preconceituosa. Elas não são doentes mentais, são apenas gente sem caráter e moral, bem conscientes do que estão fazendo.

Por esse mesmo motivo que há a proposta de substituírem as palavras de sufixo -fobia que definem preconceitos por palavras com -misia.

Vamos parar com o capacitismo.



9 de jun de 2018

O sexo biológico

Há pouco tempo perambulou por aí pela Internet essa imagem:


E eu propus a seguinte resposta: E) Masculino, masculina, provavelmente homossexual.

Provavelmente homossexual porque, bem, não foi constatada uma atração exclusiva por homens. N pode ser bi, pan, poli, oni, assexual homorromântico, entre muitas outras possibilidades.

Agora, sobre o sexo. Primeiramente, se N já estava com sua documentação retificada, por lei, seu sexo é masculino. Mas sei que a questão foi formulada pensando na corporalidade de nascença, e muita gente também nem se importa com o que tem respaldo por lei.

Não apenas gêneros começaram a ser questionados como também os sexos. Como foram classificados? Por que são classificados? Para que são classificados? Vamos discutir então!

Primeiro de tudo, a classificação dos sexos em masculino e feminino já é uma exclusão aos intersexos por definição. Ainda assim corpos intersexos são logo mutilados justamente para serem encaixados em uma dessas definições. E para se encaixarem no que a sociedade considera como um sexo aceitável, para também serem encaixados na visão social de homem e mulher.

Pois bem, antes falam que a biologia define gênero, mas sexos "adversos" devem ser "corrigidos" para então a pessoa "ser homem/mulher"? Percebe-se aqui então que: nem a biologia sexual é binária e misturam-se noções sociais (subjetivo, afinal são mutáveis) com anatomia (objetivo, pois é material). Então... nada é muito absoluto como tanto afirmam, né?

Sem contar que as noções do ser homem e do ser mulher mudam de cultura em cultura, de época em época. Nem isso é absoluto, até isso é subjetivo. Mas vamos focar no sexo.

Sexo é composto por cromossomos, hormônios, gônadas e genitália. Os sexos definidos como masculino e feminino são bem construídos, com padrões a serem atendidos. Nos ensinam que o masculino é XY, testosterona, testículos e pênis; e o feminino é XX, progesterona e estrogênio, ovários e vulva.

Pois bem, nem vou falar das pessoas intersexo e da diversidade imensa na intersexualidade, vou falar da diversidade dentro dos sexos "binários": existem muitas variações hormonais entre as pessoas. Pode haver atividade baixa ou alta dos hormônios predominantes, ou pode haver atividade dos outros hormônios (pois todos estão presentes em todos os corpos).

E tais atividades produzem variações nas anatomias, que podem entrar ou não em discordância com outras noções sociais do que são corpos "masculinos" ou "femininos" (tamanho do pênis é associado com virilidade, tamanho dos seios com feminilidade, etc).

Agora, a mera classificação de masculino e feminino. O que exatamente é masculino e feminino? O que torna um pênis masculino? O que torna uma vulva feminina? O que determinou que o cromossomo Y é masculino? O que determinou que o cromossomo X é feminino (isso quando não acompanhado do Y, porque... sei lá)?

Desafio alguém a dissertar sobre tudo isso sem cair em achismos, estereótipos de gênero, explicações vagas, termos abstratos ou ideias mutáveis sobre masculinidade e feminilidade.

Até agora a única função que percebi dessas classificações sexuais é apenas para impor os gêneros binários às pessoas, junto com papéis e comportamentos de gênero (que podem ser opressivos até mesmo para as pessoas cis). Se gênero é questionável, por que sexo não o seria também? Sexo não é binário e classificá-lo não tem base científica.

Por isso prefiro seguir os pensamentos da Teoria Queer e aceitar que o sexo esteja sempre de acordo com o gênero. Portanto nosso amigo N, um homem trans, tem sexo masculino, porque seu gênero é masculino. Ele é homem; sua vulva, seus ovários e seu útero são de homem.

"Ah, se agora as pessoas podem dizer o que quiser do seu sexo, como fica as questões de saúde?"

Ora, que a comunidade médica crie um novo sistema de identificação sexual!

Uma alternativa que imaginei seria utilizar códigos que definissem que tipo de genitália, gônadas, hormônios e cromossomos a pessoa tem. Basta identificar o tipo sexual da pessoa ao nascer, registrar seu código, e pronto, problema resolvido. E a pessoa pode nomear seu sexo como quiser, dentro de sua subjetividade enquanto ser humano (que não interessa ao sistema de saúde).

Isso resolveria também muitos problemas de pessoas transicionando biologicamente e de pessoas intersexo. Ideias existem, só não há força de vontade. Classificações sexuais apenas servem para sustentar o cissexismo e o diadismo.

É bizarra essa necessidade de mencionar sexo "masculino"/"feminino" quando se trata de pessoas trans. Isso definitivamente não é respeitar a identidade da pessoa, parece sempre uma forma de dizer que "no fim ela é o que nasceu".

Corporalidade é um assunto íntimo, e nem está inclusa nas definições de atrações ou de identidade de gênero. Saúde? Ora, quem tem próstata vai em proctologista, quem tem vagina vai em ginecologista, e etc. Simples. Só precisam saber o órgão, não classificação do sexo.

Finalmente estamos percebendo o que sexo realmente é: apenas sexo.



6 de jun de 2018

Parada LGBT 2018

O tema deste ano foi "Poder pra LGBTI+: Nosso Voto, Nossa Voz". A verdadeira intenção foi conscientizar sobre a importância do voto, ainda mais considerando que estamos em ano de eleições, e também considerando o cenário atual de tanta corrupção e tantes candidates retrógrades.

Claro, não basta votarmos em candidates que sejam da comunidade LGBTQIAPN+ ou de outras minorias. Necessitamos de pessoas realmente comprometidas com as causas sociais, que queiram uma sociedade tolerante e inclusiva, que não usem minorias só para ganhar voto. A comunidade precisa ter ciência do poder que ela tem. Não somos uma ínfima parte da população nacional: somos milhões! Milhões podem fazer mudanças!

Depois de acompanhar todo o processo de formação e condução da Parada, mudei até minhas perspectivas sobre ela. Eu ainda me preocupava com a consciência política das pessoas no evento. Mas eu agora penso que o evento não consegue realmente mudar as pessoas, ainda mais em um único dia que é mais festa do que um protesto político. E que bom que vai tanta gente pra festejar! E que a cada ano vá mais pessoas.

A APOGLBT precisa também melhorar muito sua inclusividade e interseccionalidade, tanto com a própria diversidade da comunidade quanto com outros grupos. Sinceramente, embora tenha sido ótimo a adição da letra I de intersexos, não presenciei qualquer discussão sobre o segmento, então a letra ficou muito de enfeite. E o Grupo de Trabalho BiPanPoli sofreu o maior descaso a ponto de nem terem um trio elétrico próprio, e ainda quase serem jogades com gays e lésbicas.

E sobre minha experiência, estava tudo bem enquanto pude me soltar um pouco e mostrar meus cartazes (fiz cinco cartazes só para o evento). Depois aconteceu uma série de eventos que estragou minha festa, e não quero narrar aqui. Essa Parada conseguiu ser melhor e também pior que as anteriores. Dificilmente irei em outra. Vida que segue.